Parceiros
[X] Fechar

Seu nome:

Seu email:

Nome do amigo:

Email do amigo:

Lições de “Sobre a firmeza do sábio” para não-sábios

Telegram Whats Twitter Email Mapa de imagens. Clique em cada uma das imagens
sábado, 21 de maio de 2022 - 08:20
Depois de acabar o livro "Sobre a brevidade da vida", do qual falei em post anterior, comecei a leitura de "Sobre a firmeza do sábio", que, na edição vendida pela Livraria Senso Incomum, vem junto com o anterior.

Ainda não finalizei a leitura, apesar de já bem estar perto de conclui-lo. Entretanto, já deu pra perceber que o livro, a exemplo do primeiro, é um verdadeiro "manual" de como enfrentar as intempéries da vida.

É interessante como Sêneca apresenta o sábio como um modelo perfeito de uma das características mais marcantes de um estoico: uma indiferença tanto pelos prazeres quanto pelas dores mundanas. Essa indiferença chega a tal ponto de parecer, pelo menos aos meus olhos de ser humano chinfrim, quase uma catatonia.

Além deste, outros pontos colocados por ele chamaram-me a atenção, principalmente analisando-os dentro do contexto atual, onde "palavras machucam". Enumero-os todos abaixo:

A capacidade do sábio de ser refratário a injúrias e contumélias: Injúria todo mundo sabe o que é, ainda mais no mundo de hoje, em que você corre o risco de ser processado por isso se ousar dizer na rua que "a noite é escura". Entretanto, confesso que precisei recorrer ao Pai dos Burros para descobrir o significado dessa linda palavra contumélia, que à primeira vista eu achei que significasse uma solteirona do interior, ao invés do que realmente é: um tipo menor e sem importância de injúria, uma fofoca, mal criaçãozinha, como alguém que lhe vira o rosto quando você o cumprimenta, uma coisa tão insignificante que chega a ser difícil de definir, embora encha o saco de nós, os não-sábios. Aproveito o gancho da palavra por mim desconhecida para uma outra dica: Leia esse tipo de literatura sempre com papel e caneta do lado. Se este tipo de leitura não servir para mais nada (do que eu duvido), enriquecerá enormemente seu vocabulário. Além, é claro, de te impedir de querer saber o que pensa a Míriam Leitão, o que é uma enorme vitória... bom, melhor esquecermos o "jornalismo" tapuia e voltarmos a Sêneca. Note que o estoico deixa claro que um sábio não ignora que sofreu uma afronta, mas que não sofre com o golpe, o que tem ainda mais mérito. E mais ainda, que é bom que o sábio sofra esse tipo de injustiça de vez em quando, para treinar seu caráter, à feição do esportista que se desafia vez ou outra, com um treino mais pesado ou com um adversário mais forte:

"Não é invulnerável algo que não recebe um golpe, mas aquilo que não sofre ferimento. Vou te mostrar um sábio desse nível. Acaso há dúvida de que a força mais confiável é a que é invencível e não a que não sofre ataque, já que é duvidosa a robustez não colocada à prova, porém, é tida merecidamente como a mais confiável a firmeza que repele todos os ataques? Do mesmo modo, saibas tu que um sábio é de natureza melhor se nenhuma injúria lhe é nociva do que se nenhuma lhe é feita. E eu direi que é um homem forte aquele que as guerras não subjugam, nem o apavoram as forças inimigas que se aproximam, e não aquele que desfruta de ócio sedentário no seio de povos inativos".


O sábio não se incomoda com as injúrias, mas as pune: À primeira vista, parece um contrassenso, mas Sêneca deixa muito claro que nesse caso, a punição a quem comete injustiça tem um caráter educativo, como a que damos (ou deveríamos dar) aos nossos filhos:

"... não sem razão o sábio encara como brincadeiras as suas contumélias e por vezes os adverte e os castiga como a crianças, não porque tenha sido afetado por uma injúria, mas porque eles a fizeram e para que deixem de fazê-la. De fato, assim também a montaria é domada com o açoite: não nos enfurecemos com esses animais quando recusam o cavaleiro, contudo os punimos para que a dor vença a contumácia. "

Procurar, consciente e constantemente, rir de si mesmo: Além de manter o frescor da alma, à medida em que exercita nosso bom humor, tal providência ainda tem, dentro do contexto do ensinamento do mestre romano, o condão de impedir que outros se riam de nós ou, pelo menos de impedir que isto nos atinja. Consegue visualizar o porquê do mundo estar de cabeça pra baixo hoje em dia, com gente que se dói quando se usa a expressão "quadro negro"?

"E o que dizer de quando nos sentimos ofendidos se alguém imita nosso modo de falar ou de andar, ou algum defeito do nosso corpo ou da nossa linguagem? Como se esses fatos ficassem mais perceptíveis na imitação de um outro do que em nós mesmos! Alguns ouvem contrariados falar de sua velhice, dos cabelos brancos e de outras coisas que se fazem votos para alcançar; falar mal de sua pobreza deixou alguns enfurecidos, no entanto, quem a esconde já se censurou por causa dela. Assim, dos petulantes e dos que gracejam por meio de insultos retira-se o argumento se espontaneamente o abordares primeiro. Não oferece motivo de riso quem ri de si mesmo".

"Ah, porra, mas isto é para sábios, não pra mim", você pode estar pensando, caro leitor. E é claro que se isso só servisse para sábio filósofo, eu, mais burro que quem vota em ladrão duas vezes, não estaria aqui tentando lhe convencer e, pior, tentando me convencer da utilidade de tais conselhos.

É óbvio que a têmpera de um sábio não é forjada da noite para o dia. É uma construção diária, que exige clareza de propósitos, vontade férrea e consciência de que muitas e muitas coisas darão errado no meio do caminho. Mesmo assim, creio que seus ensinamentos servem muito bem para pessoas comuns, como eu, mesmo, estando a anos-luz desse status. E não sou eu quem o diz. É o próprio Sêneca que nos conclama, no trecho transcrito abaixo, ao bom ânimo na tarefa, mesmo diante das dificuldades que certamente virão, pois, segundo ele, depois de iniciada, a jornada em direção à condição de sábio (ou, no meu caso, apenas de menos burro) parecer-nos-á menos difícil:

"[... ] é árduo e confragoso o caminho que somos chamados a atravessar. Ora essa! É pelo plano que se vai para o alto? Mas ele nem é realmente tão íngreme quanto acham alguns. Somente a primeira parte tem pedras e rochedos e parece intransitável".

E é isso, meus amigos. Persistamos, porque longa é a caminhada e não faltarão espíritos de Leitão, digo, de porco, dizendo coisas como "Pra que estudar tanto?", mas certamente venceremos ao final, pois você sabe seus propósitos.

E isso basta.

Um abraço e até sábado que vem!

Fonte: Coelho de Programa

Leia mais sobre: estudos, sêneca, flávio morgenstern, senso incomum


Já conhece meu canal de vídeos no YouTube?

Copyright © Marcelo Coelho