Quem acompanhou a
série de artigos sobre Minimalismo Digital - que hoje chega a seu último capítulo - percebeu que Cal Newport deu maior ênfase aos aplicativos e redes sociais, deixando para o final (mas não menos importante) observações altamente pertinentes sobre a mídia e seu papel cada vez maior no nosso processo de emburrecimento. Entretanto, como nem tudo na vida são espinhos, o autor do
livro de mesmo nome também nos oferece um excelente antídoto para este grave problema, baseado, como sempre ao longo do livro, no aumento dos níveis de
consciência, palavra que resume à perfeição a obra do americano.
Como um contraponto à velocidade cada vez maior das notícias, um trio de alemães formados em sociologia, tecnologia e pesquisa criou um manifesto chamado "Mídia Lenta", cuja ideia central é tornar seus adeptos mais atentos e conscientes no consumo das notícias, diferenciando-se da "Mídia Rápida" por um padrão de qualidade mais alto, em detrimento da velocidade e das armadilhas do
click bait (Isca de cliques, forma apelativa como as notícias são construídas, principalmente suas manchetes, de modo a despertar a curiosidade do leitor e induzi-lo ao clique, quase sempre em detrimento de sua qualidade).
A solução adotada nos Estados Unidos é ainda mais radical: simplesmente cortar fontes de informação. Entretanto, Cal vê mais chances de sucesso na abordagem europeia, por ser mais fácil de se manter a longo prazo.
O "segredo" da abordagem está mais uma vez na
consciência. Devemos combater o automatismo com que percorremos os sites e
feeds, que é justamente o maior trunfo das empresas baseadas em Economia da Atenção. Cal justifica a urgência dessa medida com um argumento cuja veracidade qualquer um de nós pode atestar: ler 10 sites diferentes não o deixa melhor informado do que ler apenas uma boa fonte, que certamente levará um pouco mais de tempo para processar aquela notícia bombástica que saiu rapidamente nas mídias de menor qualidade.
O mesmo princípio de atenção à qualidade se aplica aos escritores e produtores de conteúdo em geral: restrinja-se àqueles que você considera autoridades em suas áreas. Entretanto, nem sempre autoridade significa grande visibilidade.
O autor dá ainda um conselho que pode se revelar indigesto:
procurar posições políticas e culturais contrárias ao seu posicionamento. Cal justifica essa recomendação citando Sócrates, que dizia que a argumentação é a fonte profunda de satisfação, não importa o conteúdo real do debate.
Outros aspectos do consumo lento de notícias são o
como e
quando ocorre. A esse respeito, o guru minimalista sugere que o leitor crie um ritual que defina a hora em que esse consumo acontecerá e escolha tanto um local que maximize a sua concentração quanto o formato específico dessas notícias.
Cal deixa por último, mas longe de ser o menos importante, passo em direção ao
Minimalismo Digital:
deixar seu smartphone.
A ideia pode parecer assustadora a princípio, mas o escritor relata vários casos de sucesso, em que, passada a ansiedade inicial causada pela falta dos aparelhos, que geralmente dura uma semana, os usuários relatam imenso bem-estar.
Entretanto, Cal reconhece a magnitude dessa missão e aponta que há situações em que as facilidades do aparelho são necessárias, citando como exemplos o uso de aplicativos de transporte em locais onde caminhar é inviável, ou o médico que atende em domicílio, muitas vezes em regiões que não conhece, o que torna o uso dos mapas digitais essencial.
Também há situações em que abandonar o
smartphone não é necessário porque o candidato a minimalista já não o usa tanto. Para todas as situações, Cal enfatiza que o importante não é o quanto você conseguirá ficar longe do seu smartphone, mas sim o grau de consciência no seu uso.
Conclusão
Cal Newport relembra o questionamento de Henry Thoreau quando da construção de uma ponte entre o Maine e o Texas ("
Para quê?"), que remonta ao maior e verdadeiro significado do
Minimalismo Digital: usar as tecnologias como suporte aos seus valores e crenças, e não vendo essas mesmas tecnologias como algo de valor por si sós.
No encerramento do livro, o autor faz questão de lembrar, ainda uma última vez, das dificuldades do caminho, sugerindo, portanto, reajustes contínuos na faxina digital, tendo em mente que muito mais que uma tarefa isolada, ela é uma nova filosofia de vida.
Um abraço e até a próxima!