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Menos conexão, mais diálogo

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terça-feira, 18 de abril de 2023 - 13:21
Nos seus primórdios, as mídias sociais foram recebidas por crítica e público como uma inovação altamente benéfica à comunicação humana. Hoje em dia, embora não totalmente descartada, esta ideia já não é unanimidade entre a classe pensante mundial. É verdade que aqui no Brasil algumas delas tenham prestado o relevante serviço de desmascarar várias intenções abomináveis da imprensa tradicional. Entretanto, isso é assunto para outro texto...

O que interessa aqui são os artigos relacionados por Cal Newport, em seu livro Minimalismo Digital, que mostram um paradoxo na influência das redes sociais no bem-estar psicológico de seus usuários. O americano justifica a existência dessa ambiguidade com um estudo citado na NPR (National Public Radio), que mostra forte correlação entre o uso das redes e uma série de consequências que vão desde o isolamento até a deterioração da saúde física, e outro artigo, de dois funcionários do Foicebook. Neste último, os colaboradores reconhecem que alguns usos de uma rede social têm o potencial de deixar as pessoas mais infelizes, mas apontam também um estudo que sugere que, se usados corretamente, esses serviços podem trazer bem-estar, através do sentimento de pertencimento a uma comunidade.

A diferença, segundo Cal, é que o estudo citado na NPR (com resultados negativos) foi desenhado por uma grande equipe multidisciplinar, da Universidade de Pittsburgh, com uma amostra nacionalmente representativa, usando os mesmos critérios empregados nas eleições americanas (que eu espero que não sejam os mesmos do DataFolha). Esta pesquisa concluiu que quanto mais uma pessoa usa as redes sociais, maiores as possibilidades de se sentir solitária, com resultados que se mantiveram mesmo quando alteradas variáveis como idade, sexo, status de relacionamento, condição econômica ou nível educacional. Um outro estudo chegou ao ponto de associar o número de curtidas e links clicados por um usuário a um decréscimo de 5 a 8% da sua saúde mental.

Para enfatizar ainda mais a necessidade de critério e consciência máximos no uso de redes e aplicativos, o autor cita um outro estudo, de Holly Shakya, da Universidade da Califórnia, e Nicholas Christakis, de Yale, que mediu as interações off-line e descobriu uma associação a efeitos positivos. Falando em português claro: os comentários e curtidas recebidas de um amigo não chegam nem perto de substituir uma interação "na vida real" com este mesmo amigo.

Uma possível explicação para a atração quase irresistível do canto de seria das redes sociais é a nossa preferência por atividades que demandem menos esforço (em outras palavras, que economizem energia). Daí ser tão tentadora a ideia de mandar uma mensagem de texto ou um "curtir" na foto do seu sobrinho, ao invés de ir visitá-lo. O guru do Minimalismo Digital destaca também que nosso cérebro, por ser analógico, não consegue distinguir facilmente a importância da pessoa que está na nossa sala da que nos mandou uma curtida ou um comentário no InstaGramsci. Alinhados, os dois fatores ajudam a explicar por que a sereia nos parece tão irresistível.


"E não é só Wilson", como diria Seu Creysson: esse uso compulsivo gera uma sensação de sociabilidade que muitas vezes faz com que achemos as interações sociais "reais" desnecessárias e que por isso nos sintamos desobrigados de praticá-las.

Praticando o diálogo

A conclusão óbvia a que se chega é que o que deve ser feito é aumentar as interações sociais "reais" e ao mesmo tempo diminuir as "virtuais". Preparando o terreno para esta "virada de chave", Sherry Turkle, uma pesquisadora e professora do MIT, estabeleceu uma distinção entre "conexão" (intervenções sociais online) e "diálogo" (intervenções sociais offline). Entretanto, Turkle faz uma importante observação: interações em que estejam envolvidos aspectos como ouvir o tom de voz e ver as expressões faciais são classificadas como diálogo, mesmo quando são usadas ferramentas online, como usando o WhatAapp.

Um exemplo que mostra a urgência dessa "virada de chave": para escrever seu livro "Reclaiming Conversation", Turkle relacionou estudos que mostram "fugas de diálogo", uma consequência de trocar o "diálogo" pela "conexão". Em um deles, efetuado num ambiente corporativo, Turkle entrevistou jovens funcionários que "se escondem" atrás dos e-mails, por ser-lhes aterrorizante a ideia de um diálogo não-estruturado.

A pesquisadora sustenta que a conexão não substitui o diálogo porque este tem uma riqueza de nuances que aquele não é capaz de processar, tais como expressões corporais e faciais e tom de voz (por mais que os emojis se esforcem para fazê-lo).

Quem leu a série de textos sobre Minimalismo Digital já percebeu que a "pregação" em todos os capítulos é sempre a mesma: não é necessário banirmos as redes sociais das nossas vidas (e abdicarmos de seus benefícios) e sim disciplinarmos seu uso (minimizando ou eliminando seus malefícios). Com Turkle não é diferente. Ela advoga que as redes sociais passem a "jogar no mesmo time" dos "diálogos", transformando-as numa mera (e excelente) forma de organizar "diálogos", ou seja, que as conexões sejam uma ferramenta de logística dos diálogos, como quando você troca mensagens de texto para combinar hora e local para um cafezinho com um amigo.

Entretanto, a professora também deixa muito claro que este é um processo lento, custoso e que envolve alguns sacrifícios, principalmente porque ainda há poucas pessoas a abrir mão das "conexões". Outro aspecto que numa primeira análise pode parecer negativo é que ao substituir conexões por diálogos, o usuário pode ter a impressão de que sua rede de amigos diminuiu. A troca é basicamente como tudo o que vale a pena na vida: requer muito esforço, mas traz grandes recompensas, como nesse caso, a melhoria da qualidade das comunicações humanas.

Assim como os personagens de outros capítulos, Sherry declara que essa volta ao diálogo em substituição à conexão certamente fará com que o usuário repense o tempo gasto ou até mesmo a necessidade de alguns aplicativos e redes sociais, eliminando-os ou passando a usá-los de formas mais inteligentes e com fins mais específicos.

Finalizando, a professora exibe os resultados de uma pesquisa em um acampamento sem smartphones nem internet que apresentou resultados positivos no bem-estar dos campistas com apenas cinco dias de troca das conexões por diálogos.

Um abraço e até a próxima!

Fonte: Coelho de Programa

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