
Por
Alex Hutchinson, para o site
OutsideOnline.com
A corrida é um esporte que depende da elasticidade - e não, não estou me referindo apenas aos tênis de corrida com amortecimento de carbono que dominaram o mundo da corrida nos últimos anos. Os
músculos e tendões agem como elásticos, esticando a cada passada e retornando à sua forma original para impulsionar a próxima. Segundo algumas estimativas, esse ciclo de retorno fornece cerca de metade da energia necessária para uma corrida prolongada, o que significa que a elasticidade muscular é tão importante quanto parâmetros mais comuns, como
o VO2 máximo. O problema: ao longo de uma corrida longa e intensa, essa elasticidade começa a se desgastar.
No início deste ano, cientistas do Laboratório de Pesquisa Esportiva da Nike, no Oregon, publicaram os primeiros dados sobre a elasticidade muscular em corredores antes e depois de uma maratona. Os resultados sugerem uma ligação entre a elasticidade dos quadríceps e sua capacidade de resistir a danos musculares, uma limitação crucial - talvez até a mais crucial - para a corrida de maratona. O trauma repetitivo de dezenas de milhares de passos causa danos microscópicos às fibras musculares das pernas, e
pesquisas anteriores descobriram que esse dano é o melhor indicador de quanto você perderá rendimento no final da prova - melhor até do que o nível de nutrição, a desidratação ou a temperatura corporal. Então, como você pode se proteger contra danos musculares durante uma corrida? Alterando a elasticidade dos seus músculos.
A ligação entre os dois só foi estabelecida recentemente, graças a uma técnica relativamente nova chamada elastografia por onda de cisalhamento. Ao enviar uma onda de ultrassom para o músculo e calcular a velocidade de propagação dessa onda, os pesquisadores conseguem estimar a elasticidade muscular. Especificamente, eles usam um parâmetro chamado módulo de elasticidade - uma propriedade do material como densidade ou condutividade térmica - que indica o quanto o músculo se estica quando você o puxa com uma determinada força. Acontece que esse módulo de elasticidade é
um indicador sensível de danos musculares: os microtraumas que se acumulam durante uma maratona fazem com que o músculo enrijeça ao final da corrida. E o seu nível basal de elasticidade antes do tiro de largada também importa, porque
músculos mais elásticos provavelmente conseguem absorver mais impactos antes de começarem a sofrer danos.
O novo estudo da Nike teve como objetivo testar essa hipótese. O autor principal foi Brett Kirby, um dos cientistas por trás do projeto Breaking2 da empresa, desenvolvido em parceria com Eliud Kipchoge em 2017, e os
resultados foram publicados no
European Journal of Applied Physiology. Kirby e seus colegas utilizaram elastografia por ondas de cisalhamento para medir a elasticidade do quadríceps em oitenta corredores antes e depois das maratonas de Chicago e Boston. Como esperado, eles descobriram que os corredores mais rápidos e experientes tendiam a começar com um módulo de elasticidade menor, correspondendo a
músculos mais flexíveis, presumivelmente porque suas pernas haviam se adaptado a níveis mais altos de treinamento. Os pesquisadores também descobriram que correr uma maratona tornava os
músculos mais rígidos e difíceis de alongar, aumentando o módulo de elasticidade em cerca de 23% do início ao fim - um sinal de alerta indicando acúmulo de danos musculares.
Os pesquisadores entraram em contato com os corredores 24, 48 e 72 horas após a corrida para avaliar a dor muscular e o ritmo que eles consideravam adequado para correr 3 quilômetros. Apenas cerca de um terço estava recuperado após 72 horas, e houve uma clara relação entre as alterações na elasticidade muscular e o tempo necessário para a recuperação. Quanto maior o aumento no módulo de elasticidade - um indicador de dano muscular - durante a corrida, mais tempo os corredores precisavam para voltar a correr normalmente.
À primeira vista, isso pode parecer óbvio: quanto mais você sobrecarrega as pernas, mais tempo leva para se recuperar. Mas conectar o dano muscular à elasticidade nos dá uma nova perspectiva para explorar maneiras de reduzir esse dano. A Nike é uma empresa de tênis, então você pode imaginar o que mais os intrigou. A principal característica da atual geração de supertênis, além da placa de fibra de carbono, é uma espessa camada de espuma leve e responsiva na entressola. Será que essa camada de amortecimento absorve parte do impacto da corrida, preservando a elasticidade dos
músculos quadríceps? Em resumo, sim. Trinta e três dos 80 corredores do grupo de Kirby usavam
supertênis, e seu módulo de elasticidade aumentou apenas 17% do início ao fim da maratona, em comparação com 31% em um grupo com velocidade equivalente usando tênis comuns. O grande diferencial dos supertênis é que eles permitem que você corra com mais eficiência assim que os calça. Mas esses resultados sugerem que eles também podem ajudar a manter o ritmo nos quilômetros finais de uma maratona e permitir que você acumule mais treinos semana após semana sem prejudicar as pernas.
Existem outras maneiras de melhorar a elasticidade e, portanto, fortalecer as pernas contra danos musculares. As recomendações tradicionais incluem estratégias de treinamento como alta quilometragem, corridas longas em ritmo de maratona de até 32 quilômetros, corrida em declive e levantamento de peso. Com a elastografia por ondas de cisalhamento, agora temos uma ferramenta para testar a eficácia de cada uma dessas abordagens. Por exemplo, simplesmente alongar os
músculos parece produzir resultados variados, o que não é surpreendente; puxar repetidamente uma faixa elástica não as torna mais elásticas. Por outro lado,
pesquisadores japoneses mostraram que oito semanas de treinos de saltos com queda reduziram o módulo de elasticidade do músculo da panturrilha em 21%.
Por enquanto, porém, os dados mais convincentes sobre a redução de danos musculares dizem respeito aos tênis. Isso é significativo porque os tênis de alto desempenho têm sido extremamente controversos. O que significa para a história do esporte quando praticamente todos os recordes, em todos os níveis, são apagados dos livros em poucos anos? O que isso revela sobre a cultura da corrida em geral, que tantos de nós estejamos dispostos a desembolsar mais de 1.600 reais por um par de tênis que promete reduzir alguns minutos dos nossos tempos sem nenhum esforço adicional da nossa parte?
Essas são questões difíceis de abordar, mas os dados sobre elasticidade validam outra perspectiva que, até agora, era predominantemente anedótica. Para muitos corredores, tênis com amortecimento espesso proporcionam uma corrida mais confortável. Durante e após provas e treinos, eles afirmam que sentem as pernas menos doloridas e se recuperam mais rapidamente para a próxima corrida. Como alguém que corre há mais de três décadas e espera continuar correndo por pelo menos mais três, correr um pouquinho mais rápido pode não ter um grande significado cósmico - mas conseguir descer as escadas na manhã seguinte a uma maratona, ou simplesmente se sentir revigorado no dia seguinte a uma longa corrida nas montanhas? Essa é uma promessa que me dá muita energia.