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Por que a corrida nunca será substituída por uma pílula
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quinta-feira, 21 de novembro de 2019 - 08:31
runnerImagine que você pudesse tomar uma pílula que reproduzisse os benefícios da corrida. Bastaria engolir um pequeno comprimido branco, recostar-se na sua poltrona favorita e sentir-se cada vez mais em forma.

Isso parece bom para você? Duvido.

Se você é como eu e trabalha duro em sua corrida, a noção de que qualquer um recostado no sofá pode colher as mesmas recompensas sem efetivamente merecê-las não soa bem. Mais do que isso, nós corredores amamos e valorizamos a experiência de correr, e seria uma pena se uma "pílula para corrida" surgisse e se colocasse no caminho de possíveis novos corredores que descobrissem essa experiência.

Já disponível

Odeio ser portador de mês notícias, mas na verdade já existe uma espécie de pílula assim. Cientistas que trabalham no Salk Institute for Biological Studies, em La Jolla, Califórnia, desenvolveram um composto conhecido como GW 1516, que imita a mudança metabólica da oxidação da glicose para a queima de gordura que ocorre durante o exercício. Em camundongos sedentários, sua administração produziu efeitos semelhantes aos de correr na roda na composição corporal. A World Anti-Doping Authority já proibiu seu uso por atletas.

É verdade que o GW 1516 não melhorarámuito seu tempo de 10 mil, mas outras alternativas médicas ao exercício o farão. O termo "doping genético" engloba uma variedade de técnicas que podem ser usadas para alterar os genes de uma pessoa ou sua expressão, a fim de deixá-la mais em forma. Uma dessas técnicas envolve a transferência de genes (digamos, aqueles que produzem o composto natural para aumentar o EPO no sangue) entre hospedeiros humanos através de vírus. Outro método, a edição de genes, envolve a inserção de pequenos fragmentos de DNA em locais precisos no genoma das células vivas para melhorar as propriedades desejáveis, como o crescimento muscular. Embora ainda não estejamos lá, esses métodos, ao contrário do GW 1516, têm o potencial de replicar completamente todo o espectro de benefícios do exercício, tornando os exercícios reais totalmente obsoletos.

Aprender fazendo

Será? Na verdade, não. Ao contrário da suposição popular, vários dos principais benefícios da corrida derivam do que mais apreciamos na corrida - a experiência consciente - e simplesmente não podem ser reproduzidos por nenhum substituto. Para iniciantes, considere as melhorias na eficiência do movimento que ocorrem como parte normal do treinamento e são um dos principais contribuintes para um melhor desempenho da corrida. Essas melhorias ocorrem por meio de um processo de aprendizado que depende da comunicação bidirecional ativa entre o cérebro e o sistema proprioceptivo - uma rede de nervos localizados nos músculos e tecidos conjuntivos - durante a corrida. Ao conversar e ouvir o corpo à medida que ele se move, o cérebro descobre meios de poupar mais energia para correr e incorpora essas descobertas no "plano" usado para executar a passada. Como todas as formas de aprendizado, é imprescindível executar o que você deseja aprender. Tornar-se um corredor mais eficiente sem correr, portanto, não é mais viável do que se tornar um malabarista mais hábil sem fazer malabarismos.

Outro benefício da corrida que melhora a performance com base na experiência é o aumento da tolerância à dor. Pesquisas mostraram que os ganhos de desempenho resultantes da corrida de alta intensidade, em particular, são explicados em parte pela capacidade aumentada de lidar com o desconforto físico. Em um estudo de 2017, por exemplo, cientistas britânicos dividiram 20 voluntários saudáveis em dois grupos. Durante seis semanas, um grupo participou de um programa de exercícios que consistia inteiramente em exercícios intervalados de alta intensidade (HIIT), enquanto o outro grupo realizou um volume igual de exercícios exclusivamente em baixa intensidade. Os testes realizados antes e após essa intervenção de seis semanas revelaram que embora os dois programas de exercícios tivessem resultado em alterações aproximadamente iguais nos marcadores de condicionamento aeróbico, os membros do grupo de alta intensidade apresentaram melhora significativamente maior no teste de tempo até a exaustão e, separadamente, em um teste de tolerância à dor.

Não para por aí. Correr também aprimora o controle inibitório, que é a capacidade de anular impulsos imediatos, como o desejo de desacelerar ou parar durante uma corrida, e permanecer focado em um objetivo menos imediato, como cruzar a linha de chegada ou atingir um determinado tempo. A corrida alimenta essa aptidão mental, que é importante não apenas no percurso da prova, mas na vida em geral. O controle inibitório extra que você adquire durante a corrida daráa você uma chance melhor de manter as mudanças de dieta saudáveis, abraçar o sacrifício de curto prazo necessário para obter recompensas de longo prazo em sua carreira ou até mesmo lidar com um período difícil com seu cônjuge.

Agora abrimos a tampa da caixa de Pandora, que são os benefícios psicológicos da corrida, nenhum dos quais reproduzível por meios médicos. Para destacar apenas mais alguns, outro estudo de 2017 publicado no International Journal of Sport Psychology relatou que completar uma primeira maratona aumentou significativamente a auto eficácia geral em mulheres e em outro estudo de 2017, seis semanas de exercício aeróbico mostraram reduzir os escores de ansiedade em 24% em estudantes universitários sem histórico prévio de exercício. Através desses efeitos, a corrida faz mais do que qualquer pílula para aumentar a felicidade geral.

A Jornada Interior

Vamos parar por um momento e imaginar agora que a experiência consciente da corrida - distinta dos efeitos fisiológicos medicamente replicáveis da corrida - não fez nada do exposto acima - que nem melhorou a eficiência neuromuscular, nem aumentou a tolerância à dor, nem reforçou o controle inibitório, nem auto eficácia aprimorada, nem ansiedade reduzida. Ainda que tudo isso fosse verdade, eu escolheria correr ao invés de tomar qualquer pílula, porque, na minha opinião, o maior benefício da experiência em corrida e que, mais do que qualquer outro, não pode ser copiado por meios médicos, é a jornada interior a que ela te leva, uma verdadeira viagem espiritual pela qual, se você tirar o máximo proveito, descobre e gradualmente se torna a pessoa que deseja ser e vive uma vida mais rica e autêntica do que seria de outra maneira.

Quando eu tinha 17 anos, percebi que estava longe de ser a pessoa que queria ser. A infeliz descoberta ocorreu em 21 de maio de 1988, o dia em que não me apresentei na linha de partida dos 3.200 metros masculinos do Hanover Invitational, um encontro regional de corrida em trilha em New Hampshire, onde fui criado. Embora adorasse correr e tivesse algum talento para isso, tendo levado minha equipe a vitórias consecutivas no campeonato estadual juvenil e júnior, eu temia e detestava a dor das corridas, e naquele dia fatídico meu medo tirou o melhor de mim, me levando literalmente para a floresta, onde me escondi como um desertor medroso, em vez de me testar contra os outros garotos. Um ano depois, abandonei o esporte, incapaz de superar minha covardia e me desprezando por isso.

Desistir resolveu meu problema imediato, mas não corrigiu o problema subjacente, que era uma falta básica de coragem. Apesar de não ter mais que lidar com a miséria das provas, durante meus anos de faculdade e depois, no trabalho, nos relacionamentos e em outras áreas, evitei fazer o necessário quando o necessário era difícil. Descobri que um covarde dentro das provas de corrida é também um covarde fora delas.

Ainda assim, eu não tinha um plano específico para diminuir a distância entre o meu eu real e o ideal, menos ainda baseado no retorno à corrida. No entanto, o destino o fez, quando me mudei para a Califórnia em 1995, em busca de um trabalho de redação. O emprego que consegui foi por acaso em uma revista de esportes de resistência recém-lançada. Eu tinha 24 anos na época e não conseguia subir um lance de escadas sem perder o fôlego, pesando quase 30 quilos a mais do que tinha quando corri minha última prova. Entretanto, com o tempo, meu ambiente profissional me afetou de maneiras que, olhando para o passado, parecem inteiramente previsíveis, arrancando as feridas deixadas para trás pela morte patética do primeiro ato da minha vida como atleta de resistência, expondo sentimentos cruéis de assuntos inacabados e um desejo de redenção. Quase antes que eu percebesse, o segundo ato da minha vida atlética havia começado, uma busca consciente de me tornar o competidor corajoso que eu não tinha sido da primeira vez.

A Maratona da Vida

Em 2004, eu havia completado quatro maratonas, um monte de meias maratonas e 13 triatlos, incluindo um Ironman. O último desses eventos foi sem dúvida o desafio mais difícil que eu já enfrentei - até 30 de maio daquele ano, quando minha esposa, Nataki, sofreu um surto psicótico, me atacou com um picador de legumes e passou os 12 dias seguintes em um hospital para doentes mentais, onde foi diagnosticada como bipolar. Fico feliz em informar que Nataki e eu estamos indo muito bem hoje, mas lutamos por muitos anos para alcançar nosso atual "felizes para sempre" e embora Nataki tenha ultrapassado o pior, com certeza, para mim, esses anos fizeram com que a dor das provas se comparasse a uma massagem sueca.

Não, isso está indo longe demais. As espécies peculiares de desespero que senti nos meus piores momentos com Nataki, a guerra interna de soma zero entre a vontade de sobreviver e a tentação de desistir difere apenas em grau, e não em espécie, dos momentos mais difíceis que já enfrentei em maratonas e outras provas, quando me vejo muito perto do limite de minha capacidade de sofrer, ainda que por algo que realmente quero. Com base nessas diferenças, ainda que não tão-diferentes experiências, tenho uma convicão profunda de que se não fosse todo o tempo e esforço que investi em minha busca para me transformar em um competidor corajoso, eu teria fracassado como marido e cuidador de Nataki, evitando a responsabilidade pelo seu bem-estar, de uma maneira muito mais consequente do que não consegui alinhar para a largada dos 3.200 metros dos meninos do Hanover Invitational de 1988.

A ciência me apoia neste ponto. Basta perguntar a Samuele Marcora, um proeminente cientista de exercícios italiano com um forte interesse na interseção das dimensões psicológicas e físicas da resistência, que diz: "Pessoas acostumadas ao estresse de exercícios vigorosos estáo melhor adaptadas para lidar com outros estressores (incluindo psicossociais) e mostram uma menor resposta ao estresse para esses outros estressores".

Em termos simples, a corrida me deu a força e a resiliência para resistir junto a Nataki e atravessar um verdadeiro inferno em vida, cujo horror é apenas sugerido pelos números: sete hospitalizações totais, pelo menos duas dúzias de chamadas de 9-1-1, três separações, duas tentativas de suicídio (uma para cada um de nós) e uma noite na prisão (para mim). Correr também mudou a forma como resisti em nossos momentos mais difíceis e como eu hoje enfrento estes momentos, que ainda ocorrem de vez em quando, embora de forma menos radical, graças a Deus.

Hoje em dia, quando você.sabe-o-que causa os problemas, sinto uma calma central, uma sensação de saber o que (e o que não) fazer e dizer e um sóbrio otimismo do tipo "isso também passará", que torna esses momentos um pouco mais suportáveis e leva a resultados muito melhores. Esse modo de ser mais sábio e mais forte é algo que eu testei nas provas. Correr me deu minha primeira visão clara da pessoa que quero ser e alimentou sistematicamente esse eu melhor ao longo dos anos, de modo que hoje sou quase capaz de dizer que ele e eu somos o mesmo.

Sou grato pela corrida manter meu peso baixo, meu sistema imunológico forte e minhas faculdades afiadas. Talvez um dia haja uma pílula que faça essas coisas tão bem quanto a corrida. Independentemente disso, estou muito agradecido pelo fato de que correr me permite olhar no espelho e ver um homem que eu respeito, algo que nem sempre eu pude fazer. E nunca haveráuma pílula para isso.

O livro mais recente de Matt Fitzgerald é: Life Is a Marathon: A Memoir of Love and Endurance. Fitzgerald o chama de o livro que ele "nasceu para escrever". As memórias envolventes misturam entrevistas sobre o apelo da maratona, reunidas durante uma missão de 8 maratonas em 8 semanas, com maiores reflexões sobre a vida na corrida e sua capacidade de nos fazer pessoas melhores, aproveitando a experiência do autor como corredor e marido.
Traduzido do site PodiumRunner.com

Fonte: PodiumRunner.com

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