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segunda-feira, 9 de maro de 2020 - 08:08
ear phonesUma coisa impressionante aconteceu comigo no dia seguinte ao Natal, enquanto visitava minha família. No meio de um longão num dique gramado, cujas paredes cercam um estuário selvagem do resto de Nova Orleans, meu telefone morreu. A música dos meus fones de ouvido bluetooth cessou com um bloop indelicado e me interrompeu no meio do caminho. Já suando, tornou-se para mim ainda mais desagradável pensar em correr vários quilômetros para voltar para casa em um morto silêncio matinal. Nenhuma jam de alta taxa de BPM de Travis Scott ou dos Pretenders para afastar o tédio e impulsionar meus joelhos. Sem outras opções, comecei a chateação do retorno.

Alguns momentos se passaram sem som por perto, a não ser a sequência do ritmo dos meus passos e da minha respiração difícil, e me ocorreu que era a primeira vez em semanas (ou meses?) que eu estava realmente sozinho com meus pensamentos por mais de 12 minutos.

Moro sozinho em um estúdio em Nova York. Mas mesmo quando estou em casa, não posso deixar de assistir a algo, enviar mensagens de texto ou ler um e-mail de alguém, ouvir um podcast ou um álbum. No caminho para o trabalho ouço as notícias. No trabalho, estou rolando a tela do celular, ligando, clicando, em reuniões, editando, preenchendo relatórios ou reagindo a notícias. Uma vez que estou "de folga" do trabalho, saio para uma bebida ou jantar com minha parceira ou amigos. Ducha, (talvez) leitura (provavelmente para o trabalho), um pouquinho a mais de trabalho, dormir, repetir.

Esqueci como é ficar entediado, mas também como é a vida sem um zumbido estático de estímulos intersticiais entre a conversa ao vivo. Vinte anos depois da bolha das ponto-com, a internet tornou o acesso ao conhecimento e entretenimento fácil. No entanto, a web agora também é assustadoramente centrípeta, fazendo com que nossas vidas cada vez mais ansiosas percam mais a forma e orbitem com mais força ao seu redor. Refletir sobre como os humanos se tornaram absorvidos demais para desfrutar da própria existência analógica é reconhecidamente muito 2016. Mas certamente, como muitos leitores dessas reflexões, minha ânsia tecnológica não parecia aguda na época.

Agora, junto com inúmeras pessoas que conheço, minha postura de descanso se tornou um pescoço esticado e as costas curvadas sobre uma tela, os dedos se contorcendo por um poço sem fim de informações e imagens, peito ligeiramente apertado. Quando sozinho, na cama, no elevador ou em quase qualquer lugar no meio, sempre parece haver algo mais gratificante de se fazer (produtivo ou demorado por natureza) do que estar com nossos próprios pensamentos. Melhor que o risco de deixar a ansiedade diária e o pânico existencial se estabelecerem.

No final da corrida acidentalmente silenciosa durante as festas de fim de ano, lembrei-me do que realmente deveria ser a sensação de limpar a mente: coisas que suprimi ou nas quais não havia refletido completamente, como a culpa que senti por esquecer uma promessa a um amigo ou o calor que ainda sentia em uma manhã de Natal, ouvindo BB King com meu avô de 89 anos, haviam sido processados com alegria ou felizmente foram embora.

Melhor do que o "barato do corredor" diário que ocorria ao correr com música, senti-me restaurado. E me perguntei se essa prática antiga de cardio solitário - que era honestamente um pouco monótona nas primeiras centenas de passos - era, de fato, a chave para aliviar o mal-estar da pós-modernidade. Por muito tempo aclamados como um alívio do estresse, grande parte dos exercícios foi engolida ruidosamente pela loucura da produtividade e da autoajuda: quantos passos, quantas calorias, quão bom em comparação com todos os outros - neste aplicativo, nesta academia, nesta aula. Como Jia Tolentino, do New Yorker, e outros, escreveram com tristeza, tudo isso não deveria ajudar?

Para muitos, a religião organizada é, francamente, inútil. Terapia não é para todos. E eu estou entre aqueles que não conseguem meditar, pelo menos não bem. A quietude que ela requer só me deixa mais consciente da minha própria inquietação. Então, em vez de sentar pacientemente com meus pensamentos, comecei a correr com eles, algumas vezes por semana, se puder, ouvidos livres de todo o estímulo, a não ser o ruído ambiente da paisagem urbana. Nenhuma música eletrônica de alta octanagem para isolar temporariamente as preocupações, nem qualquer intelectual de rádio para me distrair de destilar minhas próprias opiniões culturais. Apenas pulmões, membros agitados e toxinas sendo exorcizadas pelo suor.

É verdade que ficou mais difícil permanecer tão empolgado nos quilômetros cinco e seis. No entanto, os raros e silenciosos trechos de isolamento mental afastam as queixas mesquinhas e reforçam o que eu amo, o que os torna um atraente hábito do tipo zen, se não exatamente viciante. Comecei a deixar meus fones de ouvido no bolso no metrô (na maioria das vezes), rolar menos a tela do celular e observar mais as pessoas. E nos fins de semana, tento fazer algumas tarefas sem telefone. Geralmente, me sinto mais alegre, mais em sintonia.

Provavelmente não é coincidência: nos últimos anos, grupos de cientistas descobriram que momentos prolongados de quietude levam diretamente ao aumento da cognição e à regeneração das células cerebrais. Estar com seus próprios pensamentos não costuma ser escrito ou mencionado em um contexto positivo, provavelmente porque a frase parece tipicamente uma explicação refinada por parecer publicamente desajustado. Mas mesmo essas máquinas divinas que criamos e às quais nos rendemos têm que se desligar e reiniciar para funcionarem.

Não estou totalmente reabilitado. Às vezes, os atos de omissão digital podem parecer forçados, mesmo sendo literalmente naturais. Convencer-me a não alimentar essa coceira, ou que a estranha no happy hour possa ser mais fascinante do que a thread do Twitter no meu bolso, ainda é um debate interno animado. Ainda brinco de cabo-de-guerra e de jogar e trazer o bastão com Turtle, meu pet filhote de 10 meses, e tenho que lutar contra o desejo de colocar um podcast em segundo plano para ser um pouco mais produtivo.

Na outra semana, em uma noite agradavelmente normal, procurei meu telefone quando ele zumbiu. Turtle me deu um único, inocente e baixo latido. Não pude deixar de rir e sacar a dica.
Traduzido do site TheAtlantic.com

Fonte: TheAtlantic.com (tradução: CoelhoDeP

Leia mais sobre: fone, música

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