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A preguiça é um traço imutável do caráter?
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sábado, 7 de maio de 2022 - 07:21
Não me canso de admirar a justeza e precisão dos conceitos expostos por Jules Payot no livro "A educação da vontade". Nessa semana que passou, chamou-me a atenção a forma irrespondível que o autor usa ao relacionar preguiça a uma pretensa imutabilidade do caráter, relação essa que se torna ainda mais forte devido às "condições da vida moderna". Isso em um livro escrito em 1894!

Antes de separar os trechos de que mais gostei, deixo uma dica: Como venho aprendendo com mestre Flávio Morgenstern, do Senso Incomum, anotação e fala são estudo. Por isso eu costumava anotar tudo num caderninho "provisório" para de noite transcrever para outro caderno, numa operação que no meu tempo se chamava "passar a limpo". Entretanto, descobri que é melhor apenas marcar trechos do livro entre colchetes para depois reler os pedaços selecionados e passá-los para o caderno "definitivo ". Poupa-se tempo sem deixar de executar as ações de anotar, transcrever e falar, fundamentais ao aprendizado.

Se você não gosta de marcar seus livros, faça as marcações a lápis e apague-as à medida que for "passando a limpo".

Dica dada, vamos aos trechos que destaquei, com alguns comentários meus:

"Afirmar que o caráter é inato implica uma asserção contra a qual insurge-se toda nossa experiência íntima, toda experiência dos educadores, e a prática da humanidade inteira, a saber, que os elementos essenciais do caráter, as inclinações, são absolutamente imutáveis! Nós mesmos provamos que isto não é assim, e que se pode modificar, reprimir ou reforçar um sentimento. Se a humanidade inteira não fosse dessa opinião, ninguém se daria ao trabalho de educar as crianças. A natureza se encarregaria disso com suas leis inalteráveis".

Peço licença para contar uma experiência familiar que atesta essa afirmação de Payot. Minha filha mais velha era uma menina inteligente mas meio preguiçosa para os estudos, confiando mais na inteligência do que no esforço para se sair relativamente bem no colégio. Até que no sétimo ano, uma nota muito ruim numa prova deixou-a pela primeira (e única) vez de recuperação. O acontecimento deixou-a tão chateada que ela se propôs a deixar a preguiça de lado, transformando-se numa menina tão aplicada que hoje seu empenho nos estudos rende a ela condecorações no colégio. Isso, no meu modo de ver, é prova inconteste da mutabilidade, sim, do caráter. Basta, como Payot nos ensina logo no início do livro, "colorir de paixão a vontade", visto que "a vontade é uma potência sentimental".

Entretanto, tal empreitada é das mais difíceis, como nos mostra o pedagogo e acadêmico francês:

"Calígula desejava que os romanos tivessem uma única cabeça para decapitá-los de um só golpe. É inútil formar semelhante desejo quanto aos inimigos que desejamos combater: a causa de quase todos nossos fracassos, de quase todos nossos males, é uma só: a fraqueza da vontade. É nosso horror do es forço, principalmente do esforço prolongado. Nossa passividade, nossa leviandade, nossa dissipação, são outros tantos nomes para designar esse fundo de universal preguiça que é para a natureza humana o que é o peso para a matéria [... ] há um estado de alma fundamental, de ação absolutamente contínua, e que se denomina indolência, apatia, preguiça, ociosidade. Renovar frequentes esforços é renovar essa luta contra esse estado natural, sem aliás obter contra ele uma vitória definitiva. [... ] não se alcança nenhuma alegria sem dificuldades, toda felicidade supõe algum esforço. A leitura de um livro, a visita a um museu, um passeio num jardim, são prazeres que demandam uma iniciativa, são prazeres ativos. Como por outro lado os prazeres ativos são os únicos que valem, os únicos que podem ser sempre e voluntariamente renovados, o preguiçoso impõe-se a vida mais vazia que alguém pode impor a si mesmo".

Ou seja, para obtermos êxito em nossa tarefa, devemos sempre ter em mente que o esforço é grande, é o esforço de uma vida inteira. Outra coisa que achei curiosa nesse trecho é como a necessidade do esforço traz em seu bojo tanto uma prometida consequência de felicidade quanto uma espécie de maldição, condenando quem não se dispuser a fazê-lo a uma vida vazia...

Ainda não deixo de me espantar como há 128 anos atrás Payot já apontava as contribuições da "vida moderna" para o fortalecimento da preguiça e o consequente enfraquecimento da vontade e como pouca coisa mudou de lá pra cá nesse sentido. Eu não me surpreenderia se descobrisse que estes apontamentos foram usados por Morgenstern para afirmar que aos nos impormos a tarefa de melhorar intelectualmente, a primeira coisa que devemos fazer é deixar de lado ou, pelo menos, relegar a segundo plano, distrações como celular, redes sociais e notícias:

"Acrescente a isso o fato de que as condições da vida moderna tendem a reduzir a nada nossa vida interior, que elas levam a dispersão do espírito a um grau que dificilmente poderá ser ultrapassado. A facilidade das comunicações, a frequência das viagens, as idas ao mar, às montanhas, dissipam nosso pensamento. Não se tem tempo nem mesmo para ler. Vive-se uma vida tanto agitada quanto vazia. O jornal, a excitação factícia que ele dá ao espírito, a facilidade com que as informações atraem o interesse pelos diversos acontecimentos das cinco partes do mundo, fazem com que, para muitos, a leitura de um livro pareça tediosa. Como resistir à dispersão do espírito que o ambiente tende a produzir, quando nada na educação prepara-nos para essa resistência?"

As notícias a princípio desalentadoras para um preguiçoso como eu ficam ainda "piores", porque o sábio francês nos lembra, parafraseando Seu Creysson, que "não é só Wilson". Além do esforço constante para vencermos a preguiça, devemos ter também uma noção clara, bem definida, de nossos objetivos:

"O objetivo que o trabalhador intelectual deve visar é a energia da atenção voluntária, energia que se traduz não somente pelo vigor, pela frequência dos esforços, mas também e sobretudo por uma orientação muito clara de todos os pensamentos para um fim único e pela subordinação, durante todo o tempo necessário, de seus sentimentos e ideias à grande ideia diretriz, dominadora, para a qual trabalha. Desse ideal a preguiça humana irá sempre distanciar-nos, e nós devemos buscar realizá-lo o mais completamente possível".

É uma tarefa hercúlea? É possível? A resposta para as duas perguntas é a mesma: "Sem sombra de dúvida". O "porquê" vai ficando mais claro a cada trecho que lentamente avanço na leitura. O "como", que é geralmente "quando a jiripoca pia", tenho fé que vou descobrir mais à frente.

Se tudo der errado e a vida intelectual se mostrar ainda mais espinhosa do que o esperado, a cada dia me convenço mais de que terá sido melhor "perder tempo" com isso que com as asneiras da mídia tapuia...

Um abraço e até sábado que vem!

Fonte: Coelho de Programa

Leia mais sobre: estudos, flávio morgenstern, senso incomum

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